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  De Médico, louco e professor, todo mundo tem um pouco  
     
 

 

              Em certos dias fico refletindo sobre outras profissões além da que exerço há tantos anos. Realmente não conheço nenhuma outra  que receba tantos palpites, conselhos e ingerências.

            Acredito que muitas pessoas que não são professores pensam que poderiam facilmente estar dentro de uma sala de aula, diante de uma turma de alunos e que faria bonito, sem a menor sombra de dúvida.

            Essas idéias são errôneas e nos deixam, nós educadores, muitas vezes descrentes da humanidade. Será o Benedito? Será que todo mundo acha que sabe ensinar e que isso é “fichinha”?

            Basta ver o que escuto quase toda semana. Ainda na semana retrasada recebi um telefonema de um pai que estava indignado porque o seu filho não sabia a tabuada de cor e que no tempo dele, ele fazia todos os dias como lição de casa dez vezes a tabuada do 2 ao 10. Fiquei com pena de sua infância. Posso até imaginar a cena: o pobre garoto esfregando a mão a cada centena de números.

            Tentei argumentar e dizer que damos muita importância ao aprendizado da tabuada e que acreditamos que os alunos devem sabê-la de cor, até por uma questão de economia nos cálculos. Tenho certeza de que ele não se convenceu.        

            Dois dias depois, D. Amália me esperava na entrada da escola. Estava furiosa porque a professora de sua filha estava cobrando tabuada. Onde já  se viu, falava ela! Imagine só, que perda de tempo para a criança decorar a tabuada! Que lástima fazer alunos perder minutos copiando uma tabuada!

            Novamente tentei explicar alguma coisa, mas não houve meio. Ela saiu batendo o pé e dizendo que não acreditava que esse ensino fosse bom, de qualidade.

            Assim são muitos dias em que os pais pedagogizam: não querem mais o caderno de caligrafia uns. Exigem o caderno de caligrafia outros. Uns não querem que os alunos façam cópia de texto. Outros exigem que os alunos copiem “para melhorar a letra”. Outros gritam: Boa era a cartilha Caminho Suave. Aprendi com ela!

            É um trabalho no qual pagamos por ter cão e pagamos por não ter cão.

            Imaginou se um médico ouve seu paciente  que quer decidir sobre qual a medicação mais adequada para seu tratamento?

            Penso que por alguma misteriosa intervenção cósmica caímos no descrédito dos pais de nossos alunos que criticam nossas ações pedagógicas e se esquecem que temos o direito sobre elas porque estudamos e somos de fato  legítimos professores.

            Um pouco de fé  naquilo que podemos fazer e de respeito pela nossa atividade docente pode nos ajudar a realizar o sonho de todos os pais que amam seus filhos: prepará-los para exercerem seus papéis de cidadãos éticos, felizes, responsáveis e conscientes.

Sonia Regina Potenza Guimarães Pinheiro

 
     
   
 
 
     
     
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