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  Quem fala o que quer, ofende e agride.  
     
 

            Não podemos ficar cegos às mudanças gerais que ocorrem com o passar dos anos. Algumas delas só nos trazem benefícios e melhoram nossa vida.

            Já faz algum tempo que eu ando refletindo sobre as mudanças que envolvem os relacionamentos humanos. Confesso às amigas de minha idade que não podemos “pagar mico” se demonstrarmos estranhamento ou indignação quando nos deparamos com uma situação que difere muito do nosso pensar.

            Hoje, porém quero me deter na linguagem dos tempos atuais e como ela vem mudando com velocidade espantosa.

            A linguagem que eu conheci no passado era polida e cuidadosa. Uma moça não falava determinadas coisas. Um aluno não falava certas coisas para um professor. Um pai de aluno media as palavras quando conversava com a professora de seu filho. Com a diretora da escola, então, praticamente não conversava e se o fizesse , a linguagem utilizada era medida e pensada.

            Chamávamos todas as pessoas mais velhas do que nós de senhor e de senhora. Usávamos esse tratamento também para pessoas com cargos de reconhecida importância.

            Assim fui criada. Assim foram criados os cidadãos da minha geração. Fomos orientados a acreditar que o uso adequado da linguagem já era o caminho todo andado para  construir relações de respeito.

            Por esse motivo muitas vezes me aborreço quando verifico que a linguagem está , atualmente, a serviço do desrespeito e da violência e , pasmem, com a benção da família, onde seus membros aprendem desde a mais tenra idade a ofenderem-se mutuamente e a usar palavras como metralhadoras giratórias.

            Tenho a impressão  de que  aos poucos foram sendo quebradas barreiras, em nome da modernidade e do poder que todo indivíduo deve ter de se expressar e de criticar.

            No entanto, creio que a pior forma de ofensa e ataque lancinante se mostra na linguagem escrita. Devemos, no meu entender, cuidar de forma minuciosa de nossa linguagem escrita quando vamos nos endereçar a quem quer que seja. Digo que é pior, porque a escrita não se esvai no ar como as palavras que proferimos e resta como prova do “delito”, da falta de educação ou do desrespeito descarado.

            Na escola, atualmente, nos deparamos às vezes com algumas situações em que a linguagem com a qual pais e alunos se utilizam para  relatar descontentamentos, fazer solicitações ou críticas, é recheada de termos inadequados para que as relações entre escola e família caminhem para  a solução dos problemas que uma escola tem.

            Quem pode colocar as vírgulas corretamente, os pontos  nos is e ensinar que nem, tudo o que pensamos podemos dizer, nem escrever, é a escola através  do ensino da língua portuguesa  calcada nos atuais conceitos de gênero.

            Se não acreditarmos que devemos à escola uma educação ampla, de informação e formação, podemos nos preparar para afiar as línguas e as garras e preparar as trincheiras, porque a guerra estará declarada e não haverá vencedores.

 

Sonia Regina Potenza Guimarães Pinheiro

 
     
   
 
 
     
     
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